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9 de junho de 2015

“No caminho certo”, por Manoel Neves

Enem-001O Enem foi criado em 1998 e tinha por objetivo avaliar o ensino médio. Em 2008, o exame sofreu uma reformulação que visava à substituição do vestibular por um sistema único de seleção tanto para a rede pública quanto para a particular.

A alteração do exame atingiu não só o objetivo da prova, mas também a estrutura do ensino médio brasileiro. Se até 2008, para entrar em uma universidade, era fundamental saber as dicas e os macetes ensinados nos cursinhos e nos melhores colégios particulares, a partir de 2009 as habilidades mais relevantes para se ter acesso ao ensino superior passaram a ser a escrita, a interpretação e o conhecimento de matemática, responsáveis por três mil dos cinco mil pontos distribuídos na prova. Ademais, o fato de a prova de redação ser a única em que se pode obter a totalidade dos pontos fez avançar o ensino dessa disciplina e estimulou o aluno a se aperfeiçoar na prática da escrita, o que, sem dúvidas, não só permite o ingresso em uma boa universidade federal, como também é capaz de promover o maior objetivo do ensino: a formação de espírito crítico.

De acordo com o Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp, nos últimos 20 anos houve dois grandes movimentos no acesso ao ensino superior. O primeiro deles ocorreu entre 1995 e 2002, período em que a expansão do ensino privado foi tamanha, que deu ao Brasil o posto de país com o maior número de cursos de direito do planeta. Nesse período, não se criou nenhuma instituição pública de ensino superior.

Depois de 2003, no entanto, de acordo com relatório do Ministério da Educação, o governo criou 18 universidades federais e duplicou o número de matrículas no ensino superior. Relatório do INEP aponta que o número de vagas nas federais aumentou em cem por cento, apesar de a taxa de crescimento da população, no mesmo período, ter ficado em cerca de 10%.

Nos últimos 12 anos, além do Ciência sem Fronteiras, do Reuni, da destinação de 10% do PIB para o orçamento do Ministério da Educação (contra apenas 4,7%, nos anos 1990), tem havido uma sistemática política de inclusão sociorracial, que encontra no Exame Nacional do Ensino Médio o seu ponto mais importante. Nesse sentido, convém destacar que, de acordo com o IBGE, pretos e pardos são 50,7% da população brasileira, mas ainda representam apenas 2,7% dos formandos em um cursos de alto prestígio, como medicina. Tal número seria ainda menor se o Brasil seguisse os passos de São Paulo, cuja principal universidade, a USP, não adota o Enem como processo de seleção. No Estado em questão, apenas 0,9% dos médicos são afrodescendentes. Pior: o vestibular de 2013 da USP não classificou nenhum calouro negro para os três cursos mais concorridos. Isso é prova mais que suficiente de como a ferramenta adotada para promover o acesso ao ensino superior tem tornado o país uma nação mais plural, menos mesquinha e mais democrática.

É claro que ainda há ajustes por fazer: a aplicação do exame em apenas dois dias e a extenuante maratona de quatro horas e meia de prova são algumas das principais reclamações dos estudantes. Quando se pensa, entretanto, no que está acontecendo no Estado de São Paulo, tem-se a certeza de que o Brasil está avançando na melhoria do ensino superior e está se tornando um país mais justo, mais instruído e mais igual.

Artigo de opinião publicado no jornal Figueira do Rio Doce, no dia 5 de junho de 2015.

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